A casa ainda é o abrigo
Abrigos
Quatro pessoas, duas crianças. Sem luz. O abrigo não é uma cabana no parque. É a porta que fecha, e, se a casa cair, um teto pequeno longe da água e do vento.
Isto não ensina invadir casa, armar o terreno nem dormir com brasa dentro da lona. Carvão ou fogo em carro fechado mata pelo monóxido. Enchente: não pare no fundo do vale. Esta página não disca.
Áudio
O primeiro abrigo já existe
Enquanto a casa está de pé e a água não sobe, você não sai para construir. Fecha uma porta. Escolhe um cômodo só. O chão frio rouba calor: colchão, papelão limpo ou cobertor debaixo do corpo, não só em cima. Janela fechada no vento, aberta o bastante para o ar se o cômodo abafar. Vela longe da cortina. Uma luz só. Mosquiteiro, se a casa tem, porque no Brasil o mosquito adoece antes do frio de filme. Lixo fora do quarto. A família inteira no mesmo cômodo aquece mais do que quatro portas abertas. Isso é abrigo. O parque, de noite, com duas crianças, não é.
Quando a casa não serve
Enchente no piso, incêndio, teto que vai cair: sai. O destino é o que está no papel, de dia, os quatro juntos, com a bolsa que parece de viagem. Não é uma lona na praça. Lona na praça diz que você tem o que os outros não têm. O cinza não monta acampamento à vista. Se a noite pegou no caminho e não há porta, aí sim o abrigo de uma noite. Não é casa nova. É não dormir na chuva.
O lugar, antes da lona
Olhe uma hora, não um minuto. Fora do leito de rio seco: a chuva de madrugada enche sem avisar. Fora de baixo de galho morto. Fora do caminho, para ninguém tropeçar em você no escuro. Um pouco alto, para a água descer. Perto de lenha fina só se você vai acender, e o fogo fica fora da lona, como na página do fogo. No mato, o chão sem formigueiro e sem trilha de animal. Na cidade, um recuo de muro ainda é rua: você está visível. Se há porta de parente a duas horas de caminhada e ainda há luz no céu, caminhe. Não construa.
A lona de uma noite
Uma lona, um plástico grosso ou um saco de entulho limpo e sem químico. Uma corda na altura do peito, entre duas árvores ou dois pontos firmes, longe da rua. A lona por cima da corda, os dois lados descendo até o chão, presos com pedra, não com a mochila: a mochila fica com você. O chão de dentro recebe o que isola: papelão, folha seca, roupa que não está no corpo. O corpo não deita na terra nua. A abertura fica de costas para o vento e pequena. Cabe a família, ombro com ombro. Não cabe fogueira. A água da chuva escorre por fora. Se o plástico encostar na pele a noite inteira, a pele molha do próprio suor. Deixa um vão. De manhã, desmonta. Abrigo de uma noite que fica de dia vira endereço.
Sem lona
Se não há plástico, o abrigo é volume. Um tronco caído ou uma mureta baixa faz a parede do vento. Do lado protegido, um colchão de folha, capim seco ou papelão, mais alto que a sua mão espalhada. Em cima do corpo, o que houver de seco, e as crianças no meio dos adultos. Não é cabana de manual. É não entregar o calor ao chão e ao vento até de manhã. Molhado por cima e molhado por baixo, a noite derruba gente em clima que de dia não parecia frio. Se achou porta antes disso, a folha fica no mato.