Quem não vira sozinho
A Cama
O homem cinza que cuida precisa de um relógio, não de um palco. O lado, a água, o remédio que o médico já mandou, a pele, e o descanso de quem está de pé.
Isto não é diagnóstico e não troca o enfermeiro. O ritmo usual da casa é virar a cada duas horas, de dia e de noite, para o sangue chegar na pele que ficou por baixo. Esquerda, costas, direita. Nunca só as costas a noite inteira. Na hora de comer ou beber, a cabeceira sobe. A água entra em goles, no copo que você conta. O remédio é o que já está escrito na caixa, no horário que o médico deu, não um horário inventado aqui. A cada virada, olhe a pele: se a vermelhidão não some, se a pele abriu, se a febre veio, se parou de beber, se a respiração mudou ou se não acorda como de costume, o passo é o 192. Esta tela não disca. E quem cuida também é a casa: se você não come e não dorme um bloco, os dois caem. Fica neste aparelho. Não sai.
Áudio
A tabela das horas
A lista já está aqui. Coloque o horário em que o relógio deve despertar para você vir. Do lado, as palavras que ele vai falar. Deixe esta página aberta, junto da cama. Se o navegador dormir, o chamado pode falhar.
O aviso mostra a frase que você salvou. Ele chega ao telefone enquanto esta página está aberta, ou enquanto o navegador ainda está vivo. Se o aplicativo for fechado à força, um site não consegue empurrar. No iPhone, ponha o site na tela de início, senão o aviso não aparece.
Ainda não há horário para despertar.
Virar de lado
Ainda não está salvo.
Trocar a fralda
Ainda não está salvo.
Dar o remédio da caixa
Ainda não está salvo.
Dar água
Ainda não está salvo.
Higiene da boca
Ainda não está salvo.
Comida
Ainda não está salvo.
Olhar a pele
Ainda não está salvo.
Montar uma vez
Monta uma vez. Os dois lados da cama livres, se a casa permitir, para virar sem arrastar. Lençol esticado: a dobra marca a pele. Um travesseiro nas costas, para o corpo não cair, e outro entre os joelhos. O calcanhar não apoia no colchão. Água, o remédio da caixa e um objeto que faça barulho ficam no alcance da mão, se a mão ainda alcança. A luz da noite é baixa, o bastante para ver a pele, não uma lanterna no olho. Isto não se faz com a coluna em dúvida: aí quem mexe é quem foi ensinado, não o improviso.
A virada
Ainda não virou
Esquerda, costas, direita. Não as costas a noite inteira.
Água, em goles
0
Na hora de comer ou beber, suba a cabeceira.
A pele, nesta virada
Quem está de pé
Se você não come e não dorme um bloco, os dois caem.
O passo de quem cuida
O cinza não improvisa o corpo de quem não vira. Segue o passo. Se piorar, não resolve sozinho: chama quem foi ensinado.
Áudio
- Lave as mãos antes de tocar a pessoa.
- Olhe o rosto e a respiração antes de fazer qualquer coisa. Se não acorda como de costume, pare. O passo é o 192.
- Vire na hora salva. Esquerda, costas, direita. Lençol esticado. Calcanhar fora do colchão. Não esfregue a pele vermelha.
- Fralda: limpe da frente para trás, seque, não deixe úmido. Olhe a dobra da virilha e a base da coluna.
- Água em goles, só se ainda engole, com a cabeceira alta. Se não engole, não force. Comida é a que a casa já come. Remédio é o da caixa, na hora que o médico deu.
- Fale com a pessoa. Uma coisa verdadeira. Não fale dela como se o quarto estivesse vazio. A audição costuma ficar.
Se piorar
Se piorar, a casa não cura. A casa vê e chama. Vermelhidão que não some: vire mais e avise o enfermeiro no mesmo dia. Não esfregue e não passe produto do armário. Pele que abriu: água limpa só se o enfermeiro já ensinou, pano seco por cima, e a equipe hoje. Não corte. Não feche. Infecção é vermelhidão que cresce, calor, pus, cheiro ruim, febre ou confusão. Isso não se resolve em casa. A equipe hoje. Se a respiração cai, se não acorda, se uma perna incha e esquenta e o fôlego falta de repente: não massageie a perna. O passo é o 192. Tosse com catarro e cansaço para respirar: sente a pessoa e chame a equipe. Tristeza longa, comida que para, ou a frase de que não quer mais viver: não deixe essa frase sozinha. O médico, e o 188. Alegria aqui não é festa. É lençol limpo, voz conhecida, janela, e não ser tratado como quem já foi embora.
O sol
Sol, só se o médico não proibiu e se a caixa do remédio não manda evitar o sol. Não ponha ferida aberta no sol direto. Alguém fica junto. Dez a quinze minutos, cedo ou no fim da tarde, não no meio do dia se a pele queima. Olhos protegidos. Cabeça apoiada. Se ficar vermelho, suar, tremer ou disser que dói, volte para dentro. O sol é para o dia e para o ânimo. Não é tratamento. Se o médico disse que não, não vá.
Quando o objetivo é o conforto
Quando o médico já disse que o objetivo é o conforto, a casa muda de pergunta. Não é mais vencer a doença. É não deixar a pessoa com dor, com sede de boca, com medo e sozinha. A dose não se inventa aqui. O que está na caixa, no horário que a equipe deu, é o que se dá. O que a casa observa é o rosto, a respiração e o corpo que recusa a virada. Isso se conta a quem cuida de verdade, não se posta. A boca seca se molha com um pano, em pouco, se a pessoa ainda engole. Se não engole, não se força água. Quem não engole pode ir para o pulmão. A falta de ar, quando já era esperada, alivia um pouco com a cabeceira alta, a janela aberta e um ar no rosto. Se a respiração cai de um jeito que ninguém esperava, o passo continua o 192. Se a equipe já deixou um plano para as últimas horas, segue-se esse plano, não esta página. Fale como quem é ouvido. A audição costuma ficar por último. Não fale da pessoa como se o quarto estivesse vazio. E não filme.