Sem gás, o fogo fica fora
Fogo sem gás
A luz acabou e o botijão também. O fogo, se houver, é pequeno, de metal, ao ar livre, com alguém olhando. Dentro do apartamento, não.
Não acenda fogueira na sala, no corredor nem no quarto. O monóxido mata sem cheiro e sem grito. Sem quintal, sem terra ou sem um fogão a lenha de verdade: não há fogo. Há sardinha e aveia de molho. Não use gasolina, álcool, spray nem plástico. Esta página não disca. Fogo em mato seco é queimada, e a lei continua valendo.
Áudio
Onde pode
Chão de terra ou pedra, longe de mato, de cortina, de telhado baixo e da roupa no varal. Uma panela ou lata de metal, com uma assadeira embaixo para a brasa não cair no vizinho. Uma pessoa adulta olhando o tempo todo. Um balde de água ou de areia ao lado, enchido antes de acender. Vento leva faísca: se o vento está forte, não acende. Varanda de madeira, em cima de outra família, não é quintal. O prédio que proíbe fogo continua proibindo no mês sem gás. O cinza não vira o incêndio do andar.
Três jeitos de acender
Guarde os três secos, antes da terça, numa lata com tampa. O primeiro: isqueiro que você já testou. O segundo: fósforo, de preferência o que não morre com um pingo de água, e a lixa junto. O terceiro: uma haste de ferrocerium, a pedra de fogo, que acende molhada e não depende de fluido. Três, porque um falha. A pilha do rádio não é o terceiro. Gastar aço fino e bateria para faísca come a notícia do mês. Sol forte e uma lente funcionam só com céu limpo e isca escura. Não conte com isso de noite nem na chuva.
Isca, graveto, lenha
O erro é pôr logo o galho grosso. A ordem é fixa. Isca: o que pega com uma faísca. Algodão com um pouco de vaselina, papel seco amassado, palha bem fina, casca seca. Graveto: palitos mais finos que um lápis, secos, partidos, um punhado. Lenha: só depois que o graveto já fez brasa, pedaços pouco mais grossos que o dedo, secos, sem tinta e sem verniz. Nada de plástico, espuma, borracha ou madeira pintada. A fumaça disso adoece. Monte um cone pequeno dentro da panela, a isca no centro, o graveto em volta, folgado, para o ar passar. Acenda a isca. Se abafar, assopre na base, de lado, não de cima. Quando o graveto pegar, aí sim o pedaço maior. Fogo alto não cozinha melhor. Derruba e queima quem está perto. A chama que cabe na panela chega.
Apagar é parte de acender
Cozinhou, acabou. Espalha a brasa dentro do metal e cobre com água até parar de chiar. Mexe. Se ainda fumega, mais água. Não durma com brasa. Não deixe a panela na varanda e entre. Cinza quente acende de novo com o vento. Antes de ir embora, o metal aguenta o dorso da mão. Se não aguenta, ainda é fogo. A lenha que sobrou volta seca, guardada, longe da chama que já morreu. Uma fogueira não é o fogão do mês. É a panela daquele dia. O mês continua sendo o arroz, o feijão, a sardinha e a aveia, no fogo pequeno, quando o lugar deixa.
Quando não há lugar
Sem lugar seguro, não se inventa lugar. A sardinha come fria. A aveia amolece na água de beber, e essa água sai da conta. A farinha que a casa já come também se mistura fria. Não é o prato quente. É o prato que não põe fogo no prédio. Esperar o gás voltar é melhor do que uma brasa no quarto. O botijão reserva, se ainda existe, continua sendo o fogão. Esta página só começa quando ele acabou, e mesmo assim só lá fora.