A diferença foi antes da terça
Sete dias sem luz
Apagão geral. Sem internet, sem ônibus, sem cartão. Duas famílias no mesmo corredor. Marido, mulher, duas crianças. Uma casa já tinha a semana. A outra tinha a geladeira.
Isto é um cenário de ensino, não uma previsão e não uma ordem. Não ensina saque, invasão, nem arma. Enquanto o telefone viver: 193 se há fogo ou gente presa no elevador, 192 se o corpo falhou, 190 se a violência é agora. Esta página não disca.
Áudio
Como a semana começa
A luz cai numa terça, de tarde. Não é o filme. É a rede. O semáforo apaga no mesmo minuto. O celular ainda tem bateria e, por um tempo, alguma torre. Depois a torre acaba. O cartão não passa. A bomba do posto não liga. O elevador para onde estava. No prédio, a caixa d'água do alto ainda desce por umas horas, se ninguém esvaziar à toa. Geladeira fechada segura pouco: umas quatro horas. Freezer cheio, cerca de um dia, se a porta não abre toda hora. Fogão a gás ainda funciona, se há botijão e fósforo. Fogão elétrico vira peso. Ônibus some porque o sistema e o combustível da bomba pararam. Quem está na rua volta a pé. Quem está no andar alto desce de escada.
As duas casas
O mesmo corredor. A mesma família nos dois lados: marido, mulher, duas crianças. A casa despreparada compra mercado de dois em dois dias. O botijão está no fim. Não há água guardada. O dinheiro está no banco. O remédio da criança dá para poucos dias. A casa preparada não é um bunker. É a casa deste site. Água guardada. Comida que a família já come, bastante para a semana. Botijão de reserva. Uma lanterna, não um altar de vela. Rádio a pilha. Dinheiro em espécie. Papel com o ponto de encontro. O remédio de verdade. Sabão. A bolsa de três dias está na porta. Eles não saem no primeiro boato.
O primeiro dia
Na primeira hora a casa despreparada procura vela, abre a geladeira várias vezes e desce para ver a rua. A mensagem não sai. A criança tem medo do escuro. A casa preparada fecha a geladeira, enche o que ainda couber enquanto a torneira dá, confere o gás, acende uma luz só e conta as quatro pessoas. Combinam a água e o banheiro. Não anunciam estoque no corredor. Na cidade, o trânsito trava porque o sinal morreu. O mercado pequeno ainda atende, se o dono ficou. A fila leva a água, o pão e a pilha. O caixa eletrônico está mudo. À noite a rua fica mais escura do que o costume. O perigo dessa noite não é a fome. É a queda na escada, a vela perto da cortina e o boato.
O segundo e o terceiro dia
No segundo dia a casa despreparada come o que descongelou. Se a carne ficou fora, o cheiro começa. A água do prédio falha no andar alto. O banho longo de ontem foi o último fácil. O celular está quase morto. A casa preparada come o prato de sempre, em porção normal, não em banquete de medo. A água é medida: beber e cozinhar primeiro. Uma notícia vem do rádio, não do corredor. As crianças têm uma tarefa pequena e uma hora de dormir. Vizinhos batem à porta. Pedem vela, água, carga de celular. A casa sem estoque não tem o que dar. A casa com estoque dá um copo e uma frase, e não abre a despensa. No terceiro dia o arroz da casa despreparada depende do gás que está no fim. O mercado grande, se alguém chega a pé, já não é abastecimento. É multidão, prateleira vazia de água e boato de que no outro bairro ainda tem. A casa preparada não vai. Nesse dia o mercado não salva. Espalha.
Do quarto ao sétimo dia
No quarto e no quinto dia a casa despreparada entra na troca. Um vizinho tem gás, outro tem arroz, ninguém tem água bastante. O corredor discute a caixa d'água. Gente que nunca falou agora mede a porta alheia. Algumas famílias saem a pé para a casa de um parente e não voltam no mesmo dia. A casa preparada continua chata. A água ainda dá se mediram desde a terça. Se não mediram, também aperta: preparado não é infinito. Eles sabem em que dia a água acaba. Não iluminam a janela. Não contam o estoque. No sexto e no sétimo, se a luz não voltou, a cidade cheira a lixo. O hospital ainda funciona no gerador, com fila, e não é mercado. A doença da mão suja chega antes da fome de filme. A casa despreparada está com sede, crianças chorando e o casal brigando por uma decisão que não foi tomada na terça. A casa preparada está cansada e inteira. Comeram. Beberam com conta. Se a água acabar no sétimo dia, não entram na multidão. Tratam o que der, ou caminham cedo, os quatro juntos, para o ponto que está no papel, com a bolsa que parece de viagem. Não de madrugada. Não um sozinho.
O que esta semana recusa
Não ensina invadir mercado. Não ensina fechar a rua. Não transforma o vizinho em inimigo. Um copo de água para quem bate na porta não é abrir a despensa. A diferença entre as duas casas não foi coragem no quinto dia. Foi água, comida que a boca já aceita, gás, uma luz, papel, sabão e a boca fechada, decididos antes da terça. A família despreparada sofre a semana. A família preparada atravessa cansada. Nenhuma das duas vira filme. Uma vive pior. A outra ainda tem escolha.