Três dias
Detalhe do kit de 72 horas
Três dias para sair, esperar ou chegar num ponto. Não é para viver no mato. A bolsa parece de viagem e sobe três lances sem teatro.
A ordem de morrer, grosseira, é esta: três minutos sem ar, três horas sem abrigo no extremo, três dias sem água, três semanas sem comida. A bolsa obedece essa ordem, não a lista da internet. A lista para marcar está em Kits. A caixa de socorros da casa é maior. Aqui entra só o que a mão usa na escada.
Áudio
Para que servem as 72 horas
O prédio manda descer. A enchente sobe. A luz não volta e o mercado não abre. Você caminha até a casa de alguém, ou espera três dias num abrigo, ou fica no carro até a manhã. Não é fuga para a mata. Não é mudança. Se a bolsa não passa na catraca do trabalho sem constrangimento, ela não é de 72 horas. É de palco. Uma fica perto da porta de casa. Se o carro é plano B, uma menor no porta-malas: água, luz, cobertor, triângulo, carregador. No calor, a água do carro se troca. Não deixe garrafa no sol o ano inteiro.
Água, o peso que decide
Dois a três litros na bolsa, por pessoa que vai a pé. Um litro pesa um quilo. Três litros já são três quilos antes da comida. Por isso a bolsa não carrega a semana: carrega o dia e o meio de fazer mais. Filtro que você já usou em casa, pastilha, ou o plano de ferver, o mesmo da aba de água, ensaiado, não lido na hora. Garrafa que fecha. Não dezenas de garrafinhas abertas. Se há criança, idoso ou calor forte, o três litros é o chão, não o teto. Sem tratar mais água, a garrafa acaba no segundo dia e a bolsa mentiu.
Comida que não pede fogo
Três dias do que a boca já aceita sem fogão. Barra, castanha, biscoito que a casa come na terça, lata com o abridor dentro da bolsa, não na gaveta da cozinha. Soro de reidratação se o médico da família já orientou, sobretudo no calor e na diarreia. Não é banquete. Não é ração com nome de operador que ninguém prova. Se a criança não come aquilo no domingo, não coma “no dia”. Um açúcar ou glicose de bolso, só para quem está acordado e engole. Comida que precisa de água para render conta como água também. Anote isso no peso.
Corpo: chuva, frio, meia
Capa de chuva que cabe no punho. Manta ou saco compacto. Um par de meias secas, o item que a internet esquece e o pé cobra. Um jogo de roupa da rua em que você está, não uniforme. Chapéu se o sol é o problema. No frio do sul, uma camada a mais. No calor, a capa ainda entra: a chuva brasileira molha o documento e a gaze. Saco estanque para o papel e o telefone. Lixo e higiene mínima: sabão, papel, absorvente. Doença chega antes da fome se a mão não lava.
Luz, papel, recado
Lanterna de mão e pilha sobressalente. O telefone é mapa e recado, não é a única luz. Power bank carregado e cabo curto. Rádio a pilha, pequeno, para quando a torre calar. Apito. Fita. Mapa de papel da cidade e da rota até o ponto. Cópias de documento, não o único original se você pode evitar. Dinheiro miúdo. Lista de contatos no papel: o ponto de encontro, o prazo, um telefone fora da cidade. Uma frase. Sem aplicativo. Bússola só se você já sabe usar. Aplicativo offline só se foi testado em modo avião.
O socorro que cabe na bolsa
Não a caixa inteira da casa. Luvas. Gaze. Esparadrapo. Um curativo. O analgésico que você já usa. O remédio das 72 horas de quem tem pressão, diabetes, criança, alergia, com a dose escrita. Adrenalina e bombinha só se foram prescritas. Termômetro, se couber. Caderno e lápis. Açúcar só para quem engole acordado. Cartão 192, 193, 190, válido no Brasil. Fora do país, o número local, escrito antes. Torniquete não entra nesta bolsa se ninguém treinou. O gesto completo está na aula e na aba vermelha. A bolsa só carrega o pano.
Quem vai junto muda a bolsa
Criança: um dia a mais do que ela não larga, a roupa do tamanho de agora, o remédio com a dose, cópia do documento. Idoso: o comprimido da pressão e o que a perna aguenta. Não é a mesma carga. Quem não mastiga o seco precisa de outra comida. Animal: água, um pouco de ração, a guia, se ele vai. Se não vai, o plano de quem fica com ele está no papel, não na esperança. Cada pessoa que caminha tem a própria água. Uma bolsa só para quatro corpos vira mudança e para no primeiro lance.
O teste do peso
Vista. Suba três lances. Caminhe até a esquina e volte. Se o ombro dói, saiu coisa: a segunda ferramenta, a lata que ninguém come, o casaco de fantasia. A bolsa fica na porta, não no fundo do quarto. Uma vez por estação: validade, pilha, tamanho da roupa da criança, clima. Uma vez por mês no calor: a água. Quem mora com você acha a bolsa de olhos fechados e sabe a frase do ponto. Sem foto. Sem plateia. Sem discutir o que levar quando a escada já está molhada.
Marcar a lista de 72 horasOs três anéisComo tratar a águaA caixa de socorros da casa