CHomem Cinza

Detecção automática

A casa quieta

Protocolo de apagão

Dez minutos de ordem. Depois, a casa espera. Não é passeio para ver o bairro.

Áudio

Os dez minutos

Pare. Cheiro de gás: não acenda fósforo, vela nem lanterna, abra e saia. 193. Sem cheiro: uma lanterna, não um círculo de velas. Geladeira e freezer fecham e não abrem para olhar. Um telefone em economia, brilho baixo. Os outros desligam. Conta as pessoas da casa em voz alta. Quem está no elevador não se tira no filme: chama o 193 e espera. Se a torneira ainda corre, enche o que estiver limpo. A caixa do prédio morre quando a bomba morre, e o andar de cima perde primeiro. Não saia agora para ver a rua.

A primeira hora

Olhe pela janela. Se só o seu prédio apagou, pode ser a caixa do edifício. Se a rua inteira está escura, é mais largo: não muda o protocolo, muda a espera. Fogão com fósforo, e só se não há cheiro de gás, uma boca. Ignição que só vive de eletricidade não se improvisa. Chuveiro elétrico não se liga no escuro. Remédio que mora na geladeira já tinha o plano do médico escrito. Não é esta página que inventa a dose. Rádio a pilha, um boletim, não dez grupos. Carro na garagem fechada não é gerador: o gás do escapamento mata sem aviso. Se for carregar algo no carro, é lá fora, motor onde o ar troca, e pouco tempo.

A primeira noite

Uma sala, uma luz. A luz do Campo serve e apaga: ela gasta a bateria que amanhã pode ser o telefone. Vela só com alguém acordado, longe de cortina, e apagada para dormir. Porta trancada. Não abre para quem chegou dócil, oferecendo ajuda que ninguém pediu. Criança e quem não anda bem dormem no mesmo cômodo. No calor, a água e a sombra. Não cubra o bebê para “não esfriar” se a casa está abafada. No frio, a roupa e o corpo junto, não o fio puxado da rua. A casa quieta é o protocolo. O passeio noturno não é.

O dia seguinte

Geladeira fechada aguenta poucas horas, não o dia inteiro. Freezer cheio e fechado aguenta mais, cerca de dois dias, e isso é teto, não promessa. O que esquentou, o que cheira, o que é carne em dúvida, sai. Come-se primeiro o que a geladeira ainda salvou, depois a despensa. Água de beber: três litros por pessoa neste dia, além do que a higiene pedir em pouco. Telefone carrega uma vez no power bank, não a tarde inteira de vídeo. Um fato, dito a um vizinho, não uma reunião que mostra o que a casa tem. Se a luz volta, não comemora gastando a água que juntou. A bomba pode cair de novo.

Quando a casa quieta acaba

Ficar é o plano até a frase escrita dizer sai. A frase já devia existir: bebê, oxigênio, insulina, andar alto sem água, calor que a casa não aguenta, a luz que não volta e a água que acaba. Sai de dia, com as pessoas contadas, duas rotas que não são a mesma rua, o ponto que está no Cinza. Não anuncia o estoque. Não dirige em lâmina d'água se a chuva veio junto. Se o corpo falhou, o apagão deixa de ser o protocolo: ar, sangue, e 192.

O que este protocolo recusa

Não ensina gerador dentro de casa. Não ensina vela como enfeite. Não ensina postar a rua escura com o endereço. Não ensina saque, invasão, arma nem grupo. Não ensina abrir a porta para o desconhecido prestativo. Ensina a ordem: gás, luz única, geladeira fechada, água enquanto corre, as pessoas, a noite quieta, o dia seguinte com o que ainda está frio, e a saída quando a frase já dizia. 193 se há gás, fogo ou gente presa. 192 se o corpo falhou. Válidos no Brasil. Esta página não disca.

CampoOs sete diasO passo curto