Campo 37 · 16 min
Planos extremos — antes que aconteça
A hora de ir embora decide-se na terça. Rio, vento, sismo, apagão, pandemia, conflito. Papel, não filme.
Áudio
O plano que existe antes
Extremo não avisa no tom do cinema. Avisa no rádio, na marca d’água no degrau, no vizinho que já saiu. Quem espera o pânico para pensar escolhe tarde: a rua já fechou, o elevador já parou, o grupo já inventou um fim. Cinza escreve o plano numa terça fria — quem sai, para onde, com o quê, qual é a hora — e ensaia o caminho. O protocolo do instante está em Protocolos (apagão, água subindo, sair agora). Este campo é o antes: o papel que impede o corpo de improvisar o filme.
- 01Uma folha: nomes, telefones, ponto B (casa de alguém em cota alta ou fora da bacia), rota A e rota C. C de cortada — a A sempre fecha.
- 02Pasta: documento, receita, um cartão, dinheiro miúdo. Cópia fora da casa se puder.
- 03Ilha de 14 dias do que a casa já come. Água alinhada à calculadora. Remédio das 72 h no saco, o resto no plano do médico.
- 04A hora de ir embora é um gatilho escrito, não um palpite. Marca no muro, sirene, ordem oficial, ou o vizinho da cota mais baixa já na rua. Quem mora à beira do rio decide a marca agora.
Rio, enchente, a hora de ir
Quem mora perto de rio, córrego, fundo de vale, não espera a sala encher. Enchente é esgoto, correnteza e eletricidade — o protocolo Água subindo é o agora. O antes: conhecer a bacia, a cota da casa, a rua que vira canal, o ponto alto a pé. A marca: um tijolo, um degrau, a cerca do vizinho. Quando a água toca a marca, ou quando Defesa Civil manda sair, você já está no caminho. De noite não ‘vai ver’. Trinta centímetros levam um carro. Criança não brinca na poça. Água da enchente não se bebe. Saco do ir embora: pasta, remédio, água, luz, um jogo de roupa, o animal. Estação de chuva: o saco dorme perto da porta.
Furacão, vento forte, tornado
Furacão e ciclone avisam em dias. Tornado avisa em minutos. São ofícios diferentes. No aviso longo: água, ilha de comida, rádio, documentar o que a casa tem, recolher o que voa, fechar o que a lei e o prédio pedem, sair se a ordem for sair — inland, ponto B, não a praia ‘para ver o mar’. No aviso curto (tornado, temporal de vento): cômodo interior, o mais baixo, longe de vidro. Banheiro, corredor, porão se houver. Não é o viaduto. Não é a janela. Deite, cubra a cabeça. Depois: fio no chão é vivo até prova em contrário. Árvore na fiação: distância, 193 / concessionária, não herói com serrote.
Terremoto
- Durante: abaixe, cubra, segure. Debaixo de mesa firme, longe de vidro e prateleira alta. Não corra para a rua no primeiro abalo se o teto ainda é teto.
- Elevador não. Escada quando o tremer parar. Réplicas vêm.
- Gás: se cheirar, não acenda, saia, avise. Água e luz: só se o prédio e a concessionária disserem.
- Antes: prender o que cai na cabeça, sapato ao lado da cama, lanterna, o combinado do ponto B se a casa falhar.
Apagão extremo
O protocolo Apagão agora vale os primeiros dez minutos. Extremo é o dia dois, o dia cinco: caixa d’água, geladeira que não se abre, um telefone, rádio, vizinho do elevador, dinheiro miúdo, o que a casa já come sem fogão elétrico. Não acenda vela solta. Gás: cheiro primeiro. Boletim por rádio, não por vinte grupos. Quem depende de equipamento elétrico (oxigênio, geladeira de insulina) tem o plano do médico e da rede de saúde escrito — Cinza não inventa gerador ilegal nem furto de luz. Kit Apagão e Estoque já listam o que a prateleira pede.
Pandemia
O plano civil não é bunker nem guru. É o que a autoridade de saúde pede, mais a ilha da casa: 14 dias do prato de sempre, sabão, água, remédio do contínuo, um quarto se alguém adoecer, janela, não teatro de desinfetar o correio. Informação: boletim oficial, não o áudio que ‘já sabe’. Cinza não vende cura, não esconde doente, não assalta farmácia. Distância e máscara quando o recinto e a norma pedirem. Vacina e tratamento: o médico e o posto, não este parágrafo. Medo em 100 Hz (campo 21) cocria filas e rumor. O ofício é margem: sono, prato, hábito, o telefone da unidade de saúde no papel.
Guerra e conflito — o civil
Este guia não ensina a combater. Ensina o civil a não ser o cartaz nem o estoque alheio. Campo 23 (cinza militar público) e 26 (regras civis) já traçaram o limite: lei, baixo perfil, sem milícia. O plano de conflito, se a rua azedar até esse ponto: documentos, água, ilha de comida, ponto B fora da linha, rádio, o combinado de quem fica e quem sai. Abrigo da casa se a ordem for ficar; sair se a ordem legal for sair. Não filme, não poste, não ‘vá ver’. Não pegue arma de palco. Não saqueie. Cruz Vermelha, Defesa Civil, autoridade do lugar — as portas civis. O medo de Apocalipse não é plano. Margem é plano.
Ensaio da terça
- 01Escreva a marca do rio (ou o gatilho do seu extremo) e mostre a quem mora na casa.
- 02Ande a rota A até o ponto B uma vez. Marque a C no papel.
- 03Abra Kits → Planos extremos. Marque o que já existe. O buraco é o que a água cobra.
Áudio
Conteúdo educacional. Não substitui treinamento profissional, orientação médica ou as autoridades locais.