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Campo 79 · 16 min

Leitura de cartas topográficas

A carta é o terreno deitado no papel. Curvas, escala, cores, o colar. Sem isto a bússola aponta e você não sabe o que está à frente.

Áudio

Não é o mapa do celular

O app mostra rua e pin. A carta topográfica mostra o relevo: o que sobe, o que desce, onde a água corre, onde a mata fecha, onde o homem pôs ponte e torre. Sem relevo você escolhe o vale que vira cânion e a crista que não tem água. O cinza lê a carta em casa. No campo só confirma.

  • No Brasil: IBGE e DSG. Folhas 1:25.000, 1:50.000, 1:100.000. A 1:50.000 é o ofício do campo.
  • Mapa turístico ajuda a trilha marcada. Não substitui a folha com curvas.
  • Dois exemplares: um na casa, um na mochila, seco. A chuva come papel. Saco ou plástico.

Leia o colar antes do desenho

A margem da folha não é enfeite. Nome da folha, índice, escala, equidistância das curvas, datum, declinação, ano do levantamento. Quem pula o colar usa uma carta de outro século no sítio errado.

  • Escala: 1:50.000 — 1 cm no papel são 500 m no chão. 2 cm são 1 km.
  • 1:25.000 — 1 cm são 250 m. Mais detalhe, menos área. Bom para o parque e a serra curta.
  • 1:100.000 — 1 cm é 1 km. Serve para planejar o dia, não o passo.
  • Equidistância: o salto de altitude entre duas curvas. Na 1:50.000 brasileira costuma ser 20 m (às vezes 10). Está escrito. Não invente.
  • Datum: SAD-69 nas folhas velhas. SIRGAS 2000 nas novas. Misturar com o GPS do telemóvel desloca você dezenas de metros. Confira o colar e o app.

As cinco cores

  • Marrom — curvas de nível, corte de terra, duna. O relevo.
  • Azul — rio, lago, nascente, pântano, açude. Água. Linha azul fina que treme = curso intermitente.
  • Verde — mata, cultivo, pomar. Branco no meio do verde muitas vezes é campo ou clareira.
  • Preto — casa, torre, cerca, trilha, nome, ferrovia. O que o homem pôs e o escrito.
  • Vermelho / laranja — estrada principal, tinta urbana. Nem toda folha usa os dois iguais. A legenda manda.

Curvas de nível — o relevo em linhas

Cada curva junta pontos da mesma altitude. A água não as atravessa a não ser caindo. O olho que lê curvas deixa de ver um desenho e passa a ver o morro.

  • Mestras: mais grossas, com o número da cota. Conte a partir delas.
  • Intermediárias: finas, entre as mestras.
  • Juntas = ladeira. Afastadas = plano. Coladas até sumir = paredão ou talude.
  • Círculos fechados = cume ou depressão. Depressão traz dentinhos para dentro. Sem dente, é alto.
  • Regra do V: a curva faz V no vale. A ponta do V aponta para montante — para onde a água vem. Siga a ponta e sobe. Siga a abertura e desce.
  • Crista: o V ou o U aponta para baixo. Espigão: o mesmo, mais estreito. Colo (sela): ampulheta entre dois altos. Passo natural.

Quanto sobe — sem o app

Desnível = número de curvas × equidistância. Dez curvas de 20 m = 200 m de subida. Distância no papel × escala = metros no chão. Inclinação grosso: desnível ÷ distância. 200 m em 1 km é 20 % — perna, água, tempo dobram.

  • Perfil: risco o traço da marcha na carta. Conto as curvas que cruzam o traço. Sei se o ‘atalho’ é parede.
  • Criança, calor, carga: o mesmo desnível custa o dobro. A carta não cansa. O corpo cansa.

Três nortes

A carta tem norte verdadeiro (geográfico). A malha tem norte de quadrícula. A agulha tem norte magnético. Os três quase coincidem no dia a dia da serra curta. No rumo longo, o colar traz o diagrama da declinação. Use o número do ano da folha — a declinação anda.

  1. 01Oriente a carta: norte da folha com a agulha (ou com o sol, campo 78).
  2. 02O terreno à sua frente casa com o desenho. Rio à esquerda no papel = rio à esquerda no chão.
  3. 03Polegar no ponto. Anda, o polegar anda. Sem isto a carta é poster.

Malha e coordenada — para dizer onde está

A malha UTM na folha 1:50.000 costuma ser de 1 km. Número na margem: este (direita) e norte (cima). Ler: este primeiro, norte depois. ‘Direita e para cima.’ Serve para o recado, o rádio civil, o 193 — um ponto, não um palpite.

  • what3words e o pino do telemóvel ajudam se há bateria. A malha da carta não pede rede.
  • Zona UTM do Brasil: grosso 18 a 25. A folha traz a zona. Não misture zona de uma carta com o número de outra.

Do papel ao chão

  1. 01Antes de sair: três pontos da folha que você já viu com os olhos. Casa, ponte, cume. Sem isto a carta é desenho.
  2. 02Corrimão na carta = linha no chão (rio, estrada, crista). Trava = o que está depois do destino.
  3. 03Dois rumos a dois pontos conhecidos cruzam onde você está. Ensaie no parque.
  4. 04O que a carta mostra e o chão não: trilha fechou, mata nasceu, açude secou. A curva do morro quase sempre está. Confie no relevo mais que no traço preto da picada.

Onde achar a folha no Brasil

  • IBGE — cartas topográficas públicas, índice de folhas, PDF. Em casa, no Wi-Fi. Imprima a da sua região.
  • DSG / Exército — folhas de serviço geográfico, muitas em domínio de uso civil. Não é manual de combate. É a mesma curva do morro.
  • Parques: ICMBio, secretaria estadual, o centro de visitantes. A carta do parque + a 1:50.000 da região.
  • Não baixe só a trilha do app. Baixe a folha. A trilha some. O morro fica.

Erros que perdem o dia

  • Escala errada na cabeça: medir 1 cm como 1 km numa 1:50.000. São 500 m. O dobro do tempo.
  • Norte da carta invertido. Oriente sempre. Sem isto o rio ‘à esquerda’ está à direita.
  • Confiar na picada preta e ignorar as curvas. A picada fechou. O vale não.
  • Datum do app diferente da folha. O pino ‘está’ 80 m no outro lado do rio.
  • Ler o V do vale ao contrário e subir o que era para descer.

Áudio

Conteúdo educacional. Não substitui treinamento profissional, orientação médica ou as autoridades locais.